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THÔNG TIN TÀI LIỆU

Thông tin cơ bản

Tiêu đề Crônicas Para Ler Depois do Fim do Mundo
Tác giả Mario Persona
Trường học Unknown
Chuyên ngành Literature, Contemporary Essays
Thể loại Sách điện tử
Năm xuất bản 2013
Thành phố Unknown
Định dạng
Số trang 46
Dung lượng 397,35 KB

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Nội dung

O autor propõe uma espécie de “reset” e a instalação de 11 “mindsets”, que não vou traduzir porque se você ainda não saiu da lição do “the book is on the table” é melhor incluir um “min

Trang 1

Crônicas Para Ler Depois do Fim do Mundo

por

Mario Persona

Smashwords EditionISBN:

* * * * *

Publicado por:

Mario Persona no SmashwordsCopyright © 2013 by Mario Personawww.mariopersona.com.brcontato@mariopersona.com.brEste livro pode ser reproduzido, copiado e distribuído sem fins comerciais, desde que o livro

permaneça na sua forma original

Apreciamos seu apoio e respeito a esta propriedade intelectual

* * * * *

Outros livros por Mario Persona:

Crônicas de uma Internet de Verão

Receitas de Grandes Negócios

Capa: Stephan Dirck Klaes

Imagens: Darren Hester, Gabriele Bianco e “natep182” em SXC.hu - stock.xchng

Versão impressa sob demanda em www.bookess.com

* * * * * Sumário

Prefácio

O que fazer quando o mundo não acaba

Ela, Robô

Lá fora é melhor

Trang 2

Se oriente rapaz

Sou mineiro

Humor líquido

Máquina sinistra

Minha bicicleta high-tech

Alter ego virtual

A expansão do ser humano

Ai, que fome!

Prêmio Mr Bean de comunicação

Eu sei que vou a Marte

Os “Caçoadores de Mitos”

Diversidade à flor da pele

Flexibilidade feminina

Invenção feminina

Banana, menina, tem vitamina

Yes, nós temos cana

Depois do fim do mundo

* * * * *

Prefácio

Espero que o título “Crônicas para ler depois do fim do mundo” não tenha levado você a pensar que

eu esteja falando literalmente do fim do mundo Não é desse fim cabal e literal do planeta terra que estou falando, pois aí seria impossível ler, seja em papel, que não resiste ao fogo, seja em e-book por não ter sobrado uma tomada sequer para recarregar

Meu assunto aqui é o fim do mundo que acontece cada vez que tudo parece começar de novo e somos obrigados a reaprender Depois de mais de meio século de idade já vi o mundo acabar

algumas vezes E para a moçada que vive esperando uma nova era, vocês nem imaginam quantas

eras novas eu precisei experimentar E quando penso que uma é nova, já era (Ui!)

Portanto é deste mundo que acaba a cada esquina da vida que vou tratar aqui Ao ler você pode até

Trang 3

me achar saudosista, de tanto que falo de diferentes passados, mas não sou assim Ao contrário, estou sempre procurando novas sarnas para me coçar e o nome disto é vontade de criar A cada fim do mundo como o conhecemos ficamos diante de novos desafios e o jeito é reciclar antes de sermos reciclados.

Neste livro de coisas velhas você vai ler de muita coisa nova, como a nova consciência de

preservação ambiental ao conhecer “O peru de Dona Gertrudes” e os “Pratos em Extinção” Em

“Acabou o papel” levo você a um passeio pelo passado do papel, o qual bem ou mal passamos todos

os dias Você viajará comigo no “Maverick de Hildebrando” e verá a paisagem das mudanças

acontecendo a duzentos por hora No caso deste Maverick, duzentos passos O impacto das novas tecnologias eu apresento em “Máquina sinistra” e a criatividade que precisamos ter para enfrentar tantas mudanças está em meu “Cérebro líquido”, o que só tenho porque “Sou mineiro”

“Santa Maria!” – você irá exclamar, quando souber que o mundo já acabou muitas vezes nos séculos passados, e talvez até queira tentar a sorte fora do país quando souber que “Melhor é lá fora” Mas aceite meu conselho: “Se oriente rapaz” ou vai ficar falando sozinho Caso você esteja envolvido na

“Expansão do ser humano”, exercite-se comigo em “Minha vida esportiva” para perder uns

quilinhos Mas isto irá exigir que você passe “Fome, muita fome!”

Mas isto é apenas um aperitivo, pois tem muito mais assuntos aqui Boa leitura e, e gostar, espalhe logo antes que este mundo se acabe

Mario Persona

Janeiro de 2013

* * * * *

O que fazer quando o mundo não acaba

Muita gente esperava pelo fim do mundo que não veio na data marcada Sim, digo muita gente, porque existe um desejo secreto em cada um de nós de não precisarmos voltar a trabalhar na segunda-feira Ou você não reparou que o fim do mundo da profecia Maia caiu numa sexta? E agora, o que fazer já que o mundo não acabou?

Bem, segunda-feira você volta a pegar no batente, seu carnê do crediário continua uma brochura e seu salário continua terminando no dia 21, bem antes do fim do mês e do mundo Mas pense nas coisas boas que ainda podem acontecer! Quais? Bem, não sei fazer previsões, mas sei que você ainda pode recomeçar com uma nova configuração

Para tanto sugiro a leitura de “Mind Set! – Eleven Ways to Change the Way You See – and Create –

the Future”, de John Naisbitt (autor de “Megatrends”), lançado no Brasil há alguns anos com o

pasteurizado título de “O Líder do Futuro – 11 conceitos essenciais para ter clareza num mundo confuso e se antecipar às novas tendências”

A ideia do título original em inglês é de uma nova configuração mental para você enxergar o futuro

com maior clareza e preparar-se para ele O autor propõe uma espécie de “reset” e a instalação de 11

“mindsets”, que não vou traduzir porque se você ainda não saiu da lição do “the book is on the table” é melhor incluir um “mindset zero” do tipo “Aprender inglês”:

1 Most Things Remain Constant

2 The Future Is Embedded In The Present

3 Focus On The Score Of The Game

4 Understand How Powerful It Is Not To Have To Be Right

5 See The Future As A Picture Puzzle

6 Don't Get So Far Ahead Of The Parade That They Don't Know You Are In It

7 Resistance To Change Falls For Benefits

8 Things That We Expect To Happen Always Happen More Slowly

9 You Don't Get Results By Solving Problems, But By Exploiting Opportunities

10 Don't Add Unless You Subtract

Trang 4

11 Consider The Ecology Of Technology

Agora vamos à minha paráfrase nem um pouco canônica, enriquecida com palpites de minha autoria

1 - Na vida tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorista Apesar de muita coisa mudar, há

coisas que não mudam As pessoas continuarão a comprar, vender, trabalhar, criar filhos etc Invente algo para as pessoas fazerem o que já costumam fazer Só que diferente

2 - O futuro é uma azeitona na empada presente Conhecer história e acompanhar o presente é

essencial para se entender o futuro O segredo é saber filtrar opiniões – inclusive as minhas – e parar

de engolir tudo o que a sociedade e a mídia derramam em sua mente Apesar do ditado popular, a voz do povo nunca foi a voz de Deus

3 - Fique de olho no placar Empresas dizem que vão fazer isso e faturar aquilo Não acredite O

garoto que vende balas no semáforo lucra mais que aquele CEO que a capa da revista diz ser a última bolacha do pacote No fim do dia o garoto volta pra casa com 100% de lucro O CEO volta devendo mais para os bancos

4 - Fazer xixi fora do penico nem sempre é ruim Inovadores são os que desafiam o “status quo” e

ousam fazer aquilo que ninguém acredita dar certo Não se preocupe em estar 100% nos trilhos Nem

o professor que ensinava matemática a Einstein acreditava nele É por isso que nem eu acredito em mim Quem sabe assim dá certo!

5 - O futuro é um quebra-cabeça Esqueça o pensamento sequencial, lógico, racional Pense

aleatoriamente Dois mais dois pode dar quatro, mas não precisa deixar o segundo dois assim

montado no primeiro Deixe um pouquinho mais longe e o resultado é melhor: vinte e dois

6 - Nem o porta-bandeira fica longe do bloco Grandes ideias fracassaram por estarem muito à

frente de seu tempo Mantenha-se numa posição em que possa ser visto pelo mercado Não siga este conselho se estiver devendo na praça

7 - Se a macarronada for boa a gente até gosta da sogra A resistência à mudança desaparece

quando os benefícios são visíveis Se as pessoas que você lidera não estiverem aceitando benefícios que são claros para você, o problema pode estar na sua comunicação

8 - Devagar com o andor que o santo é de barro Aquilo que você espera acontecer sempre

demora mais do que você espera Sua casa ainda não é no estilo Jetsons e seu carro ainda não voa O videofone foi inventado há quarenta anos, mas foi só com a Internet que ele começou a fazer sentido

9 - Quem resolve problemas ganha salário; quem explora oportunidades ganha comissão

Resolver problemas é trabalhar no ontem, mas buscar oportunidades é viver o amanhã Uau! Esta eu vou emoldurar!

10 - Um é pouco, dois é bom, três é demais Você só pode acrescentar um novo craque no time se

tirar alguém ruim Quando eu era menino, o professor de educação física me colocava no gol para completar onze Depois me tirava quando chegava qualquer um Na empresa não vai ser diferente

11 - Não se esqueça da ecologia da tecnologia Nem tente inventar um par de sapatos modelo único

para todas as mulheres A tecnologia possibilita muitas coisas, mas elas não farão sentido se não levarem em conta os anseios da natureza humana

Pronto, espero que estes onze “mindsets” ajudem você a se preparar para o futuro Se não ajudarem,

um eu tenho certeza de que irá ajudar O “mindset zero”.

* * * * *

Ela, Robô

Lá em casa tem um robô Mas não é um robô chato, como o de Perdidos no Espaço, ou ameaçador

como o “Eu, Robô” de Isaac Asimov que no filme ficou amigo do Will Smith Nem é divertido,

como a dupla C3PO e R2D2 de Guerra nas Estrelas Meu robô é comum É um robô fêmea

Sim, fêmea, mas chamá-la de “roboa” soaria estranho, por isso eu a chamo de “Ela, Robô” Não

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tinha o “He-Man”, a “She-Ra” e a “Ella Fitzgerald”? Então “Ela Robô” também pode Gorda, grande e barulhenta, “Ela” não faz o gênero futurista de Hollywood Inteligência? Só se for artificial Capacidade de memória? Esqueça “Ela” perde feio para qualquer calculadora “Ela” só serve para

uma coisa: fazer o trabalho sujo

O curioso é que quem me convenceu a ter um robô foi um hippie Verdade, um cara muito zen, vestido de um imaculado branco-algodão e com os cabelos bem cuidados, presos com uma fita atravessada na testa Hippie de butique

Sua vidinha de fiscal de praia só era possível porque, além de morar numa praia, sua mulher

trabalhava na prefeitura da cidadezinha litorânea Enquanto isso ele ficava em casa cuidando das

crianças A mulher também era hippie, mas não estava hippie por trabalhar numa repartição pública

Você conhece algum hippie funcionário público?

O sonho dela era largar o emprego e ser hippie de tempo integral no sítio do avô em Visconde de Mauá Criar os filhos longe da influência nefasta do progresso e da TV do vizinho, que enchia a cabeça dos pequenos com as músicas do Balão Mágico Sim, estamos falando aqui dos anos 1980

O casal não tinha TV, mas tinha um monte de filhos Sem TV e com um controle apenas remoto, a taxa de natalidade do casal estava acima da média do IBOPE De nossa conversa deduzi que o hippie

só sabia fazer filhos e criticar o progresso Enquanto conversávamos, minha filhinha, ainda bebê, dormia aninhada em meu colo

Fiquei curioso quando o hippie contou que, se quisessem, já poderiam se mudar para o sítio e viver bem só com a poupança da mulher Era ele quem vinha adiando a mudança, pelo menos até as crianças deixarem as fraldas Só depois pretendiam se mudar para o mato e viver comendo inhame e tomando banho gelado Sim, pois no sítio não tinha chuveiro elétrico Lá a eletricidade só chegava quando caía raio

Mas seu problema não estava em abrir mão do chuveiro elétrico Ou refrigerador, liquidificador, batedeira e ferro de passar Ele podia viver sem Até o secador, amigão dos cabelos amarrados com fita, podia ser trocado pelo vento da Serra da Mantiqueira Só um eletrodoméstico era essencial, só um! Eu estava louco para saber, e você deve estar também

– Cara – o hippie começou a explicar naquela velocidade que hippie explica –, a mulher trabalha fora e eu fico o dia todo em casa com as crianças, sacou? Faço o rango, dou banho, lavo a roupa Cara, você já lavou fraldas?

Fiz que sim com a cabeça e sorri um sorriso paterno para o bebê que dormia em meu colo

– Cara, já viu os adesivos que esses carinhas são capazes de produzir?

Fiz que sim outra vez, mas desta vez não sorri para o bebê em meu colo Naquele tempo fralda descartável ainda era ficção científica orçamentária, e no sorteio das tarefas domésticas o azar era meu Conhecia adesivos de diferentes cores, consistências e poder de aderência

– Pois é cara – o hippie falava de cara em cara –, sou capaz de abrir mão de tudo; luz elétrica,

refrigerador até o Jimi Hendrix eu aceito tocar na vitrola de pilha Mas não mudo para o sítio com criança pequena sem meu robô

Fiz cara de quem não entendeu, porque não tinha entendido mesmo

– A máquina de lavar roupas, cara! É meu robozinho, não vivo sem ela!

Naquele momento o bebê em meu colo gemeu e pareceu ter aumentado de peso e volume Foi quando decidi ter um robô

* * * * *

Lá fora é melhor

Está mais que provado: brasileiro é melhor lá fora Há anos venho observando isso aqui e lá Deve ter algo a ver com aquela história de santo de casa não fazer milagre Nem o santo quando está em casa acredita que pode fazer, então precisa sair para acabar fazendo E faz

Às vezes é preciso sair do país para se valorizar e ser valorizado Hoje milhares de brasileiros lá fora

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mandam dólares cá para dentro Será que é porque encontraram melhores oportunidades no mar? Nem sempre Alguns se sujeitaram a fazer lá o que teriam vergonha de fazer aqui Como o engenheiro desempregado aqui que se sujeita a lavar privadas lá, até virar empresário de sucesso lá e investir aqui.

além-Se o profissional parece acreditar mais em si quando sai do ninho, o mesmo acontece com quem o vê

de fora É o caso do técnico que aqui não é contratado nem para treinar time de futebol de botão de

várzea É só sair para treinar um timeco qualquer no exterior e sai na primeira página Aqui teria que

esperar a vida toda para sair no obituário de um canto de página

Palestrante também é assim Sou convidado para falar em todo o país, mas posso contar em metade dos dedos da mão esquerda o número de vezes que falei em minha própria cidade É compreensível Espera-se do palestrante que traga novidades Como alguém pode trazer novidades se sempre morou logo ali na esquina?

O mesmo acontece com artistas, cientistas, produtos e empresas Só damos valor ao que o Brasil tem bem debaixo do nosso nariz quando levamos o nariz para passear no exterior Ao escolher o melhor jogo de toalhas numa loja nos EUA, sem perceber acabei comprando toalhas fabricadas em Santa Catarina E já vi gente se gabando do sapato italiano comprado em Roma, sem saber que foi feito em Franca, no interior de São Paulo

Somos atraídos pelo que vem de fora, pelo incomum, pelo excêntrico Quando jovem eu via garotos

de fora, feios de dar dó, que faziam o maior sucesso nos bailes de minha cidade Só por serem de fora as meninas os achavam mais interessantes do que os nativos E veja que naquele tempo no Brasil ainda não havia festas de Halloween

Mas nenhuma experiência de valorização se compara ao encontro de brasileiros no exterior Na fila

de embarque em Londres, o americano que viajava comigo achou muita coincidência eu encontrar uma amiga bem ali, com quem conversei animadamente até entrarmos no avião A verdade é que eu sequer a conhecia, só conversamos porque um viu a capa do passaporte do outro Brasileiros são assim mesmo quando se encontram lá fora, amigos desde o descobrimento

Um casal da melhor idade, sentado dois bancos atrás de mim, em um voo de Lisboa a Barcelona, ficou eufórico depois de escutar eu falar “Brasil” sem “z” para o passageiro ao meu lado Ouvi os gritos que vinham lá de trás:

– Você é brasileiro? De onde? Para onde vai?

Admirei-me do entusiasmo do casal, conversando animados por sobre as cabeças dos outros

passageiros enquanto aguardávamos pelo desembarque no corredor do avião No saguão do

aeroporto conversamos mais um montão, trocamos endereços e nos despedimos Deu para ver os olhos marejados daqueles queridos brasileiros depois do abraço apertado de despedida

Meses depois passei pela cidade onde moravam e decidi procurar pelo endereço Toquei a campainha

e o homem apareceu, surpreso, acenando da porta entreaberta e dizendo que era um prazer me ver de novo Depois, pediu licença, se despediu e fechou a porta Percebi que ele também achava que brasileiro era melhor lá fora

* * * * *

Se oriente rapaz

Bem que o Gil previu Em 1972 ele já cantava o “Oriente” Tudo bem que então ele só pensou no

Japão e nem imaginou que o negócio da China seria a própria Afinal, ela só acordou depois de o sol nascer na terra do sol nascente Agora somos nós que acordamos

No ano em que Gil orientava para o Oriente, fui viver no mais ocidental Ocidente, numa típica

família americana – ele “made in USA”, ela na América Central Apesar de não ser a China, o

contato alienígena me ensinou que é importante aprender a língua

Agora oriento os mais jovens para que aprendam chinês – ou mandarim, se achar mais fácil Se eu

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sei? Nadinha De China sou zero à esquerda, apesar de meu primeiro radinho de infância ter sido um Mitsubishi A Mitsubishi é japonesa? Eu avisei, sou zero à esquerda.

Mas se quiser negociar e vender na China aprenda a língua Como assim? Vender o quê? Ora, qualquer coisa que eles ainda não vendam aqui! Ok, esqueça este argumento Vou tentar outro

Um país com mais de 20% da população mundial deve querer comprar alguma coisa Mais de um bilhão de pessoas! Um mercado com gente que não acaba mais Pílulas anticoncepcionais? Isso eles

já têm Quando as estatísticas apontavam que a cada segundo uma chinesa dava à luz uma criança, alguém sugeriu que encontrassem essa mulher e a fizessem parar Não encontraram Então

impuseram o limite de uma gestação por casal

Olha aí uma oportunidade de negócio: vender sofás de três lugares para essas famílias Mas produza alguns de quatro, porque as autoridades ainda não conseguiram resolver a questão dos gêmeos.Outra ideia? Vá para a China vender tratamento para LER, a Lesão por Esforço Repetitivo Se existe mercado para isso? Oras, se aqui o pessoal já sofre com um alfabeto de 23 letras imagine o que é digitar num teclado com mais de seis mil caracteres!

Entenda, porém, que começar um negócio lá exige paciência O povo chinês é assim Outro dia ouvi

um locutor noticiar: “O embaixador chinês demonstrou impaciência com a demora da resolução tal

e tal” Esse locutor está por fora Já viu chinês impaciente?

Por ser brasileiro, você pode até perder a paciência de vez em quando lá na China Só não solte os cachorros e nem diga cobras e lagartos em algum restaurante chinês O garçom pode perguntar se vai querer frito ou cozido Minha orientação? Aprenda a língua para proteger seu paladar

Sei disso porque me dei mal nos EUA vivendo numa família norte-americana como estudante de intercâmbio que não fez a lição de inglês em casa Adolescente e obediente, durante um mês engoli

de breakfast aquelas panquecas doces e meladas Um mês foi o tempo que levei para aprender e dizer “I hate pancakes!”.

– Como pode detestar se comeu todo esse tempo e nunca disse nada? – perguntou a mother de lá, em

inglês curto e grosso

A conversa morreu ali por absoluta falta de vocabulário Comi panquecas todos os dias por mais cinco meses até voltar ao Brasil Desde então oriento quem quiser se aventurar pelo Oriente, de avião

ou, como sugere o Gil, “num cargueiro do Lloyd lavando o porão”: Aprenda a língua!

* * * * *

Sou mineiro

Sou mineiro Não do tipo nascido nas Gerais, matuto e matreiro Também não sou do tipo que invade

as entranhas da terra ou peneira rios em busca de estranhos tesouros Mas tenho um pouco de cada:

do mineiro que matuta e do mineiro de bateia

Desde criança sou assim, explorador de veios do cérebro e minas do pensamento, sempre errante nas galerias das fantasias Até a mãe e a professora conheciam meu olhar vidrado Nem adiantava chamar, que suas vozes só iriam ecoar sob a crosta craniana Eu vivia em permanente viagem ao centro da terra dos pensamentos

Era para lá que ia, é para lá que vou quando quero encontrar a pepita dourada de uma ideia brilhante

Ao contrário do mineiro de verdade, vou com a lanterna do capacete virada para a testa e vou

quietinho Como faz o mineirinho

Não sei se é personalidade ou consequência de minha imensa falta de memória, uma vaga do

tamanho de um elefante Sou esquecido demais, por isso nunca me dei bem decorando Tem gente que bebe para esquecer Eu decoro

Esqueci de me preocupar quando descobri que minha falta de memória era o que lapidava minha criatividade Se não consigo lembrar, o jeito é reinventar Mitomaníaco? Acho que não O

mitomaníaco inventa e acha que é real Eu, ao contrário, tenho certeza

Li um artigo que explicava que não gravamos as coisas na memória como um texto grava no

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computador, o qual você puxa e ele vem do jeitinho que você guardou Se fosse assim conosco, já pensou que fossa seria? Lembrar-se de alguém que partiu sentindo a mesma dor que sentiu?

O que a gente faz mesmo é recriar Um pouquinho do que aconteceu, uma pincelada do que veio depois, uma pitada de criatividade aqui, uma opinião alheia colada ali Pronto! O quadro que você pinta agora tem mais tintas e é mais belo e real que a própria realidade de outrora

É este o segredo do sorriso de Mona Lisa Freud explicava que era por causa de uma atração erótica de

Da Vinci pela mãe, mas nem tudo Freud explica Prefiro a explicação do filme “O Falcão Está à

Solta”, com Bruce Willis Se valer a cena do ateliê de Leonardo, Mona Lisa não era assim No filme, a

Mona Lisa do passado sorri um sorriso cariado No quadro ela esconde sua triste realidade sob seu sorriso enigmático pintado

Toda criatividade é uma viagem ao reino do faz de conta, trazendo de lá coisas que poderão ou não

se tornar reais Quem cria curte mais a viagem do que a bagagem, daí inconsequência e arte andarem sempre de mãos dadas Para o criativo, o valor não é medido em cifrões tangíveis, mas em sensações nem sempre mensuráveis

Dentre os efeitos colaterais da criatividade está a alienação, considerada boa por alguns, mas por outros não Há pessoas que têm pavio curto O que tenho de curto é o fio da tomada da realidade É

só entrar na mina dos meus pensamentos que o fio estica e se desliga da tomada da superfície Isso é bom? Isso é ótimo Mas nem sempre

É perigoso viajar desligado Tem gente que dorme dirigindo, eu dirigindo viajo Bastam alguns quilômetros de asfalto para meu carro começar a ranger sob toneladas de ideias extraídas da rocha cinzenta encravada nas profundas das minas do pensamento Viajo pensando e penso viajando

Às vezes consigo anotar ideias sem sentido em um papel qualquer, ou tento ditar para um gravador digital o resultado mental que não quero esquecer Mas, quando a viagem é interessante demais e o elevador dos pensamentos desce a profundidades em que homem algum jamais chegou, perco o interesse pelo real e acabo entretido pelo imaginário

Foi num estado assim, entorpecido pela narcose que bamboleia mineiros e mergulhadores, que parei num pedágio na estrada Foi tudo muito rápido e nem sei se o cobrador percebeu quando abri o vidro

e apontei o controle remoto do portão de minha garagem em direção ao seu nariz, mas a cancela não abriu Voltei depressa à superfície disfarçando que procurava pela carteira

* * * * *

Humor líquido

Todas as noites repito um mesmo ritual de ervas e sangue da terra Nada macabro ou vampiresco

Meu ritual resume-se a um prato de salada e um cálice de vinho, que Plínio chamava de “sangue da

terra” e Eurípides dizia servir “para acalmar as fadigas” É minha recarga de bateria no fim do dia.

Mas não culpe o álcool se achar que escrevo por mal traçadas linhas Nunca passa de um cálice, e sempre vinho, jamais bebida destilada O vinho é vivo, envelhece; é como um gênio da garrafa, que atende os desejos do meu paladar quando liberto

Galileu Galilei dizia que o vinho é feito de “humor líquido e luz” Não há nada melhor para

acompanhar uma salada fresca, leve e contente, e tem a vantagem de conter antioxidantes Não me pergunte o que é e porque de repente todo mundo ficou contra os oxidantes, mas acho que o vinho serve para desenferrujar Li que combatem os radicais livres Eu também odeio radicalismos Morte aos radicais!

Antioxidante virou moda Uma hora é o vinho que é bom, outra hora é o café, dependendo do jabá pago pelos fabricantes aos jornais, ou do lobby nos laboratórios de pesquisa Ontem na TV disseram que adoçantes artificiais engordam Quase pude ver o doce sorriso dos usineiros

Mas antioxidante deve funcionar mesmo, pois faz tempo que não vejo uma ruiva E a lista não para

no vinho ou café Têm o chá verde, que saiu do esquecimento do armário, e seu irmão mais novo, o chá branco, que comprei e de branco não tem nada Mesmo assim procuro tomar, principalmente depois que descobri que meu plano de saúde agora é “Pré-Idoso” Uma tremenda mancada da área de

Trang 9

comunicação da empresa, que devia dar nomes mais motivacionais aos planos Para mim “Super Sênior” ficaria de bom tamanho.

Faz tempo que os laboratórios farmacêuticos perceberam a importância do nome Por exemplo, descobri que o Ômega-3 que agora eu tomo eu já tomava na infância, quando minha mãe me fazia engolir as intragáveis colheradas de “Óleo de Fígado de Bacalhau” ou “Emulsão Scott” Eu tomava a contragosto, só porque ela dizia que eu ficaria forte como o homem do rótulo, que carregava um bacalhau nas costas Mas se chamasse Ômega-3 eu teria tomado com prazer Que garoto não tomaria

um troço com nome de espaçonave?

Voltando ao remédio que acompanha minha salada, não entendo de vinho, por isso posso beber o tinto sem ficar vermelho Mas os entendidos mandam o branco para acompanhar saladas O que fazer? O jeito é não convidar entendidos para o jantar Alguns são chatos demais Quer ver?

Uns amigos fizeram um jantar e convidaram um connoisseur, que é como os entendidos gostam de

ser chamados Começou torcendo o nariz quando viu o rótulo da garrafa

– Nacional – pensou em voz alta, pegando o cálice pela base e enfiando o nariz torcido nele Todos pensaram que ele queria beber de canudinho usando as narinas, mas era só para cheirar

Depois deixou o vinho tonto de tanto rodopiar o cálice erguido contra a luz Não fez cara boa

Tomou um gole e parou Não engoliu enquanto o vinho não cumprimentou cada uma de suas dez mil papilas gustativas Aquilo não era vinho, era político em velório em véspera de eleição

Após um discreto bochecho, engoliu e começou a produzir uns estalidos estranhos, enquanto o laboratório de análises clínicas de seu cérebro destrinchava o sabor Aí veio a melhor parte

Se você convidar um connoisseur para jantar, aproveite esta parte dos adjetivos Esqueça a uva Ele vai dizer que o vinho tem um bouquet misto de pimentão e ameixa Vai falar do corpo, insinuar que é

adamado, aveludado ou untuoso Se disser que é chato, sápido ou foxado, não se preocupe Não é contagioso

Enquanto a comida esfriava, o connoisseur viajava no vinho e os comensais babavam na maionese

De repente saiu de seu transe e deu o veredito Curto e grosso Mais grosso do que curto, em se tratando de um convidado que devia ser mais delicado

– Deixa a desejar Os importados são melhores – sentenciou com olhar de desdém

O anfitrião não se fez de rogado Correu para a cozinha e logo apareceu com uma garrafa de vinho

francês, dos caros Só o rótulo já iluminou os olhos do connoisseur

Enquanto os outros decidiam meter o garfo na comida fria antes que ficasse gelada, o connoisseur

recomeçou seu ritual de degustação

Nariz no cálice, rodopiada, bochecho, estalidos e adjetivos, tudo igual Então veio um sorriso do mais puro êxtase:

– Grand vin! Magnifique! – arriscou em francês, para combinar com o rótulo

O anfitrião ficou tinto de tanto rir

– Que magnífico o quê, cara? Peguei uma garrafa vazia e enchi de vinho de garrafão

– Então deu sorte É uma boa safra – concluiu o connoisseur sem perder a fleuma.

A máquina de escrever reinava absoluta nos escritórios e sua batucada só eventualmente era

descompassada pelo girar da manivela de alguma máquina de calcular Sim, as máquinas de calcular tinham manivela, como nos carros antigos Acho que servia para dar partida em seu cérebro

mecânico

Trang 10

Eu era adolescente quando aprendi datilografia em um colégio norte-americano Era estudante de intercâmbio e aprendi a datilografar só em inglês, por isso até hoje preciso olhar para as teclas na hora dos acentos Também faltei na aula dos números, daí minha maior familiaridade com as letras.

Já crescido, fiz vários trabalhos de tradução usando uma máquina de escrever portátil, o equivalente dos atuais notebooks Se era rápida? Muito Não parava quieta na escrivaninha Levíssima, a

maquininha deslizava de um lado para o outro enquanto meus dedos trotavam perseguindo suas teclas

Como não existia a tecla do arrependimento, que hoje chamamos de “Delete”, às vezes eu tinha de

datilografar o documento inteiro de novo só para entregá-lo sem rasuras Também era comum eu achar que o texto estava bom do jeito medíocre que saiu na primeira tentativa, só para evitar escrever tudo de novo e tropeçar na última palavra Muitos dos grandes romances daquela época teriam outro desfecho se fossem escritos em um computador com processador de textos

A geração mais nova pode achar que no tempo da máquina de escrever a vida era complicada Não era Complicada mesmo ficou depois, quando apareceu aquele objeto estranho nas mesas de algumas empresas: o computador pessoal Quando dizem que os computadores causaram uma revolução, eu concordo Éramos nós contra eles

Qualquer pessoa da minha idade sabe o que é sentir pavor diante da novidade Minha geração só descobriu que a convivência seria possível quando começou a tratar o computador como se fosse mulher Era só não tentar entender como funcionava que tudo dava certo, com a vantagem de se

poder clicar “Mute” no ícone do alto-falante e um botão para ligar e desligar a máquina quando

necessário

A chegada do computador na empresa era sempre cercada de descrédito, piadas e risadas nervosas, como as pessoas costumam fazer em velórios e momentos de profundo estresse e medo Em algumas empresas ocorriam manifestações, revoltas ou bolsões de resistência

Sim, porque o que não faltava eram as teorias conspiratórias Uma era que os jogos que vinham de brinde serviam para distrair os usuários enquanto os computadores tomavam seus empregos Seriam

a versão moderna dos espelhinhos e contas que os colonizadores davam aos índios para distraí-los e tomar suas terras

Como se não bastasse a dificuldade de ser tudo em inglês, os computadores despertavam também suspeitas das mais sinistras Alguns acreditavam existir um poder oculto por detrás do cursor, prova inequívoca de um batimento cardíaco, e uma câmara secreta para onde eram levados presos os documentos que desapareciam misteriosamente quando faltava luz

Tudo isso preocupou um amigo quando comprou um dos primeiros computadores que

desembarcaram aqui Era um Apple que custava quase o preço de um carro Meu amigo examinou com cuidado o que vinha na caixa e ligou apavorado:

– Não estou gostando nada disso tem um disquete aqui que não parece ser coisa boa tenho medo

de usar

– O que diz a etiqueta?

– Demo!

* * * * *

Minha bicicleta high-tech

Quando vi pela primeira vez aquele tudo-em-um do iPhone, fiquei com um pé atrás Será que me acostumo com esse negócio de cineminha e telefone no mesmo aparelho? Se existe uma coisa que detesto é telefone tocando no meio do filme Você já correu atender um telefone que tocou no filme

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aumenta! Tenho um celular básico, Palm, câmera fotográfica, filmadora, gravador de mp3, pen drive Você precisa ver a inveja que causa espalhar tudo isso sobre a mesa numa reunião Com um iPhone eu não causaria o mesmo impacto.

Tudo bem que não estou mais na idade de querer impressionar, mas e a garotada? Como um garoto vai se diferenciar se todos os garotos forem iguais? No meu tempo eu teria odiado se fizessem isso com as bicicletas Naquela época as magrelas vinham peladas e a diversão era enchê-las de

penduricalhos A minha era uma Phillips, do tempo da 2ª Guerra, mas não era preta como a maioria

das bicicletas da época Meu pai mandou pintá-la de vermelho para minha irmã Ela se cansou de pedalar e eu herdei a dita

Bicicleta vermelha, de mulher e sem aquela barra horizontal masculina – dá pra imaginar? Era sair

de casa e atrair a gozação da garotada Por isso passei a gastar a mesada em acessórios para deixar a bicicleta tão diferente que os meninos se esquecessem de que era de mulher

Comecei com a campainha que fazia "trrrim-trrrim" Depois foram os canudinhos de plástico

coloridos, cortados em pedacinhos e pacientemente colocados nos 72 raios das rodas Faziam

"shek-shek" O garfo dianteiro ganhou um pedaço de radiografia que lambia os raios e fazia "Prrrréééé",

igual ao da motocicleta Java do vizinho Pelo menos eu achava.

"Prrrréééé", "shek-shek", "trrrim-trrrim", "biii-biii!" Não falei do "biii-biii"? Pois é, foi minha

próxima aquisição: uma buzina verde movida a pilha que fazia inveja à campainha do outro lado do guidão, junto ao retrovisor Depois veio o farol com dínamo, todo cromado, que parecia a nave do Flash Gordon Minha bicicleta ficava cada vez mais high-tech

Minha volúpia por acessórios não parou aí Manoplas de borracha com fitinhas coloridas e uma caixinha de ferramentas pendurada atrás do selim vieram em seguida A cada novo acessório os garotos cercavam minha bicicleta na escola para comentar e invejar Meu conceito subia

Quase me esqueci da capa do selim com o símbolo do Palmeiras Não que eu fosse torcedor, apenas comprei porque combinava com a buzina A capa era a última palavra em cafonice, com apliques de purpurina e pingentes de cordão de seda Os palmeirenses pensavam que eu era fã e os corintianos achavam o contrário Que fã iria pedalar com o símbolo do clube naquele lugar?

Naquele tempo não havia duas bicicletas iguais, pois o mau gosto dos meninos era bem eclético Na época, comprar algo com tudo instalado, como o iPhone, seria como comprar um álbum com as figurinhas já coladas Cadê a graça? Cadê a surpresa? Como se gabar de ter a figurinha do Amarildo,

da Seleção de 62, que ninguém tinha?

Agora imagine tudo num aparelhinho só: música, fotos, filmes, celular, câmera, Web, e-mails, mapas É claro que estou falando da garotada, que quer ser diferente Para alguém como eu, que não pedala e nem coleciona figurinhas, um iPhone pode até interessar

Vou poder ver um filme, enquanto filmo outro, ouço bossa-nova, ligo para os amigos, navego na Web, leio meus e-mails e dirijo procurando o endereço no mapa on-line Não contei que estava dirigindo? Melhor não

Mas ainda estou em dúvida se devo ou não comprar um iPhone É que para mim não ficou claro uma coisa: se o meu iPhone tocar no meio do filme que estou assistindo no próprio iPhone, quem deve atender? Eu ou o ator?

* * * * *

Alter ego virtual

A família inteira correu para o computador, quando uma voz nada familiar invadiu o mezanino da casa onde morávamos Estávamos em 1997 e eu acabara de fazer minha primeira conexão de voz usando um programinha paleolítico que veio num disquete de revista Naquele tempo os programas

de Internet eram baixados das bancas

A conexão estava por um fio e qualquer solavanco era capaz de derrubá-la Quando caía, era preciso

ficar discando para o provedor de Internet até conseguir linha e ouvir o teré-té-té do modem, cuja embalagem dizia ser “High Speed”.

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– Hello? – arrisquei, sem saber com que língua o outro teclava.

– Hi, how are you? – respondeu a voz alienígena dando início a um papo furado que iria durar mais

de uma hora

Dez anos depois interagir online com pessoas de outros lugares tinha virado lugar comum Então

alguém inventou uma mescla de game "Wolfenstein 3D" com shopping, clube de campo e danceteria

e batizou aquilo de "Second Life" O serviço prometia a possibilidade de você ser uma pessoa

diferente em outro mundo, enquanto interagia com pessoas que não eram o que diziam ser neste mundo Em 2007 decidi experimentar a tal da segunda vida

Digitei www.secondlife.com e tentei criar meu Avatar – era assim que chamavam o bonequinho mal

acabado que devia ser a segunda via de mim Logo descobri que eu não poderia ser eu mesmo Podia ser “Mario”, mas não “Persona”, já que era obrigado a escolher o sobrenome de uma lista que não tinha o meu Tinha "Pessoa", então decidi ser “Mario Pessoa” Num mundo virtual em inglês eu virei português!

Mesmo assim fui barrado Alguém tinha escolhido ser eu antes de mim Voltei para as opções de sobrenome e encontrei um muito estranho: “Falta” Na falta da opção de usar meu próprio nome e

sobrenome, digitei “Achei” no campo do nome e escolhi “Falta” por sobrenome Beleza, no "Second

Life" eu sou o “Achei Falta” Nem preciso dizer que o nome estava disponível.

Clica aqui, clica ali, e no campo da data de nascimento, o exemplo dado era “1980” Será que

nascidos em 1955 eram velhos demais para brincarem? Fiz de conta que não entendi e escolhi um Avatar nada parecido comigo, por absoluta falta de modelos velhos e barrigudos Eram todos jovens

e sarados

Cliquei que tinha lido o contrato que não li, e baixei 30Mb de programa só para receber um aviso

de que minha placa de vídeo era incompatível! Para quem nasceu em 1955 e tem uma placa de vídeo igual à minha, pelo jeito a opção é assistir desenho animado em parede de caverna Depois dos sem-

terra e sem-teto, descobri que havia os sem-second-life Eu era um deles.

Achei que não valia a pena investir numa segunda placa só para ter uma segunda vida, então comecei

a pesquisar sobre como seria viver naquele mundo do faz-de-conta Seus mais de cinco milhões de habitantes na época podiam comprar, vender, dançar e viver lá como nunca viviam aqui Seria uma opção para os frustrados? Os mais empolgados podiam até pagar aqui, em dinheiro real, por terrenos virtuais comprados lá, onde não existe IPTU

Considerando que consegui criar meu Avatar, mas não consegui entrar naquele mundo virtual, uma coisa me preocupa: Onde andará meu segundo eu? E mais: Como posso ser eu se não posso estar onde estou? Será que virei uma alma penada num limbo virtual? Enquanto escrevo vem a notícia de

que o "Second Life" demitiu 30% de sua equipe Talvez fosse a chance de eu me encontrar comigo

aqui fora, mas descobri que só demitiram personagens reais, nenhum virtual

Anos depois o “Achei Falta” deve estar sentindo muita falta de mim Ou não Para matar a fome de

interatividade virtual vou quebrando o galho com o Skype, tataraneto daquele programinha que fez a

família inteira ficar grudada no micro numa noite qualquer de 1997 Naquela experiência eletrizante,

eu e meu interlocutor não passávamos de nicknames, mas o papo rolou legal

A coisa só perdeu a graça quando fiz a pergunta que deveria ter feito logo de início, antes de passar mais de uma hora conversando em inglês:

– Where are you from?

– São José dos Campos – respondeu ele

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Profissionais de TI como meu filho adoram comprar o que alguém ainda vai pensar em fabricar São pessoas à frente de sua época, e eu faço negócio mesmo assim porque não me importo de estar um pouquinho atrás Afinal de contas, minha atividade não exige tanta potência de hardware Para quem

é escritor, o gargalo está na velocidade de digitação, não na velocidade da máquina

Além disso, não é de hoje que utilizo equipamentos abandonados, aposentados ou reciclados Meu

primeiro micro foi um TK-85 que nem era meu Peguei emprestado de meu sobrinho para debutar nas novas tecnologias Tudo bem que naquela época o TK-85 já era peça de museu, mas eu precisava

começar de algum lugar Comecei por ali

As revistas de informática, também velhas e emprestadas, traziam capas com batalhas espaciais cinematográficas Mas, após passar horas digitando aquele monte de linhas de código para o jogo prometido na capa, tudo o que eu via na tela era um asterisco perseguindo um acento circunflexo

com tiros de pontos de exclamação Enxergar naquilo uma cena de Guerra nas Estrelas, só mesmo

com um monitor de alta imaginação Por não ter como salvar, o jogo ia literalmente para o espaço quando o micro era desligado

Devolvi o TK-85 e peguei emprestado um TK-2000 com gravador de fita cassete Fiquei extasiado

com aquela impressionante tecnologia de gravar dados em fitas Meu êxtase durou pouco tempo

Tem gente que ouve zumbido nos ouvidos, mas eu até hoje ouço aquele “té-ré-té-té” que tocava no

gravador na hora de carregar o programinha Isso quando não aparecia uma pavorosa mensagem de

“Erro de I/O” O que significava I/O? Sei lá, devia ser algo como “Incompetência do Operador”.

De qualquer forma era emocionante ver a família inteira reunida em torno do gravador torcendo Quando o computador conseguia finalmente ler o programa, era uma explosão de gritos e aplausos

Já saíamos jogando em clima de gol, depois de esperar pelo menos dois tempos de 45 minutos com

direito a um intervalo para limpeza do cabeçote do gravador com um cotonete Devolvi o TK-2000

quando chegou a conta dos cotonetes

Cansado daquilo tudo, comprei um computador MSX usado que tinha até disk drive Para dar uma

aparência profissional ao conjunto, improvisei um monitor de fósforo verde com uma velha TV preto

e branco e um papel celofane verde colado sobre a tela Para ficar perfeito, molhei o vidro com água

e sabão na hora de esticar o papel Gostei tanto da coisa que não parei mais Sobre minha mesa

desfilaram equipamentos que hoje dariam para encher um museu – Apple II, XT, 386, 486, 586,

Pentium e nem sei mais o quê.

Depois de tantas madrugadas passadas em claro tentando configurar algum penduricalho no micro,

acabei fã de quem inventou o plug-and-play Se você já tentou instalar um scanner de mão preto e

branco sabe o que eu quero dizer Para ter sucesso era preciso desmontar o micro, encaixar uma

placa enorme, configurar mil jumpers (onde será que caiu aquela pecinha?), e ainda quebrar a cabeça com os conflitos de IRQ O que significa IRQ? Você acreditaria se eu disser que são as iniciais de

“Incompetência Real de um Quadrúpede”?

Aos trancos e barrancos fui aprendendo que a tecnologia é uma grande aliada de quem trabalha e quer manter sua carreira em permanente upgrade Hoje utilizo tudo o que posso para trabalhar de uma forma que seria impossível no passado Quando viajo, levo comigo um pequeno arsenal que, junto com a Internet, transforma qualquer quarto de hotel em um escritório funcional

Mas não basta ter tecnologia, é preciso saber usá-la corretamente para não se envolver em incidentes comprometedores, como o que aconteceu com um palestrante em um evento empresarial A empresa que me contratou contou da situação constrangedora que ele criou Com a maior pose de homem

sério, o palestrante subiu ao palco munido apenas de seu pendrive, onde devia estar sua apresentação

em Power-Point Sim, ela estava lá, mas ele não levou em conta três coisas extremamente

importantes

Primeiro, que não se deveria guardar tantos arquivos em seu pendrive, pois demorou um tempão indo

de um lado para outro tentando encontrar sua apresentação Segundo, que jamais deveria ficar de costas para o telão com o projetor ligado enquanto procurava o arquivo correto isso Terceiro, que o

gerenciador de arquivos nunca deveria estar em modo “Miniaturas”, pois quando projetadas num telão, as miniaturas ficam realmente grandes Quarto, que deveria ter um pendrive para seus arquivos

privados e outro só para suas palestras públicas

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Foi por ignorar tudo isso, e principalmente por não perceber que o técnico já havia jogado para o telão a imagem do computador, que a plateia teve a oportunidade de conhecer a coleção de fotos

eróticas que aquele distinto palestrante guardava em seu pendrive.

* * * * *

Para preservar a imagem

Pergunte a uma mulher sua idade e ela irá odiá-lo Não importa a idade Se for jovem demais, a pergunta vai soar como se ela não tivesse idade suficiente para atravessar a rua sozinha ou ficar acordada depois das dez Se for, digamos, mais madura, vai ser obrigada a mentir Sim, mulheres mentem a idade para preservar a imagem

E não é só a idade Li em algum lugar que um grande problema enfrentado pelos sites de

e-commerce de roupas femininas é o volume de trocas por tamanhos maiores Não que a demora na entrega faça a cliente engordar, mas a razão é que muitas mulheres mentem na hora de digitar suas medidas Estão preocupadas com sua imagem e com o que o site de e-commerce irá pensar

Já para os homens, a idade parece não afetar a imagem Não sei se a explicação que ouvi de uma mulher é correta, mas ela afirmava que os homens não perdem o charme ainda que revelem sua idade

real Ou será que ela disse “ainda que revelem sua idade em reais?” Já não tenho certeza Mas

pode ser, já que, para o homem, preservar a imagem é preservar sua força e virilidade, que

eventualmente podem ser substituídas por poder e sucesso financeiro quando o cabelo se vai e a barriga só vem

De qualquer modo, ninguém pode negar que as mulheres são mais preocupadas que os homens com

o envelhecimento e a aparência A moda parece cobrar isso delas a cada tendência que desfila nas passarelas em cabides cada vez mais precoces e esquálidos Uma hora é a saia que sobe, e toca as mulheres cuidarem das pernas Outra hora é o decote que desce, e elas passam a ser avaliadas em mililitros Aí vem a moda da barriga de fora, e então não é o volume que conta, mas a falta dele

A conversa feminina também é diferente da masculina quando o assunto é aparência É

perfeitamente natural você encontrar uma mulher elogiando a roupa de outra, perguntando onde comprou aquela bolsa, ou até acariciando o tecido do vestido da amiga para sentir a maciez

Ninguém se espantará se ela der uma mexidinha no cabelo da outra para testar o volume ou uma

cheiradinha em seu pescoço para conferir o perfume Se você for homem, tente fazer isso com um

amigo para ver o que acontece

Quando caminham pela calçada homens e mulheres também têm comportamentos diferentes Ambos olham para os carros, mas não pela mesma razão Os homens param quando veem um modelo novo, importado ou bem equipado Já as mulheres olham enquanto caminham e não ligam para modelos ou acessórios Olham apenas para os vidros laterais A calçada é sua passarela e os vidros dos carros estacionados formam uma sucessão de espelhos que podem até fazer emagrecer, dependendo do ângulo e da inclinação

Nos banheiros públicos o comportamento também difere radicalmente Enquanto as mulheres não têm qualquer dificuldade para fazer amizades, conversar e até trocar confidências, homens adoram encontrar um banheiro vazio e silencioso Para não deixar dúvidas quanto à sua imagem, eles evitam qualquer conversa, contato visual ou atitude que chame a atenção Querem entrar incógnitos,

permanecer despercebidos e saírem anônimos

Foi por isso que me senti a pessoa mais feliz do mundo quando consegui dar uma escapada da mesa

do restaurante e encontrei o banheiro vazio, só para mim Comigo à mesa estavam os organizadores

do evento no qual eu faria uma palestra após o almoço, além de autoridades, políticos e empresários

da cidade No banheiro eu estava só, porém cercado de tecnologia Percebi isso assim que a luz se acendeu automaticamente quando entrei, seguida do ruído do exaustor A torneira da pia também abria sozinha com a aproximação da mão, e a toalha de papel descia do mesmo jeito Até a descarga

da privada era acionada assim

Sentado ali, no silêncio daquele banheiro, me esqueci do tempo E do timer que controlava a

lâmpada no teto, que se apagou segundos depois de eu me sentar na privada Imerso na escuridão do

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banheiro sem janelas, abri a portinhola e caminhei até o ponto que eu achava ser o centro do

banheiro, meio agachado, e segurando as calças na altura dos joelhos com uma mão Com a outra passei a acenar para o sensor de movimento que eu calculava estar no teto, bem sobre a porta de entrada Quando a luz acendeu, me dei conta da besteira que estava fazendo Afinal, tinha uma imagem a zelar

Voltei correndo, de ré, para a privada, fechei a portinhola e, quando a luz apagou continuei no escuro mesmo Não pretendia colocar em risco minha imagem Afinal, o que alguém que entrasse iria pensar de um palestrante agachado no centro do banheiro, com as calças nos joelhos e dando

tchauzinho para o teto?

Quando meus pais se casaram, viajaram de lua-de-mel para o Rio em um Douglas DC3 com 23 passageiros O Boeing no qual viajo leva seis vezes mais gente, pesa cinco vezes mais e voa três vezes mais rápido Uma maravilha tecnológica

Lá na cabine o piloto tem um joystick no lugar do manche Espero que ele se lembre de que está em

um avião real e ninguém ali está querendo passar de fase De qualquer modo posso descansar, pois a tecnologia nos deu também o piloto automático, de precisão absoluta Aliás, em um voo que fiz de Roma a Londres, o percurso inteiro foi feito pelo piloto automático Como eu sei? O piloto italiano ficou conversando com os passageiros pelo interfone a viagem inteira Você acha que um italiano falando daquele jeito teria mãos para pilotar?

O avião evoluiu tanto que eu poderia até trabalhar durante a viagem Isto se conseguisse abrir meu notebook no espaço que a companhia deixou entre as poltronas Às vezes penso que a redução das refeições de bordo tenha algo a ver com esse espaço Ficou tão apertado, que na mesinha só cabe um biscoito cream-cracker Em pé

Observo tudo O botão para chamar a comissária, o furinho da saída do ar condicionado, a luz de leitura, o fecho da mesinha, e até decorei a propaganda no paninho do encosto para a cabeça da poltrona da frente Que arrependimento! Eu devia ter comprado aquela revista

Chegamos a Chapecó e as comissárias passam a dar os avisos de apertar cintos, desligar aparelhos eletrônicos e coisa e tal Olho pela janelinha e só vejo nuvens Que coisa incrível a tecnologia! O piloto sabe que Chapecó está logo ali e vai acertar a pista com uma precisão milimétrica

Invadimos a nuvem entrando em um mundo branco e cego de neblina, enquanto acompanho a sequência de sons que já decorei depois de tantos voos Ruído de flaps, o trem de pouso descendo, a turbina acelerando e reduzindo, como se calculasse a distância exata para alcançar a pista Agora só falta sentir o toque das rodas no cimento

Mas o piloto arremete no último instante Por uma brecha na neblina vejo que onde deveria existir uma pista só há copas de árvores Quase pousamos antes da pista O piloto avisa que precisou arremeter por causa da pouca visibilidade Tento imaginar a cena na cabine: uma comissária

abanando o piloto e o copiloto enquanto outra traz um copo de água com açúcar para cada um.Recomeçam os avisos de apertar cintos e lá vamos nós para uma segunda tentativa Pela brecha de nuvens consigo ver o suficiente para perceber que aquilo é o fim da pista, não o começo Nova arremetida Se eu não soubesse que o aeroporto de Chapecó se encontra firmemente ancorado no topo de uma montanha, poderia jurar que a pista está se movimentando, tentando nos evitar

Ofegante, o piloto avisa que sobrevoaremos Chapecó até a visibilidade melhorar, caso contrário pousaremos em Florianópolis Ele diz que temos combustível suficiente para quarenta minutos

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rodando ali e para a viagem até Florianópolis Como sei que no caminho não há postos com

frentistas em altitude de cruzeiro, pergunto ao rapaz ao lado:

– E se o aeroporto de Florianópolis estiver fechado?

Ele não responde, está lendo um jornal A princípio penso que o rapaz seja mal educado, mas logo percebo que o jornal está de cabeça para baixo Mesmo assim ele tem os olhos grudados nele e as unhas cravadas no papel

Quarenta minutos mais tarde o tempo melhora e lá vem a voz do comandante outra vez:

– Senhores passageiros, estamos prontos para pousar Dentro de alguns minutos estaremos todos no aeroporto de Chapecó

Depois de um ou dois segundos de silêncio, ele completou:

– Assim espero

* * * * *

O peru de dona Gertrudes

Não consigo dormir E quem consegue? Culpa do efeito borboleta Aquele que diz que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tornado no Texas Se os terroristas ouvirem isso vão querer se mudar para cá e criar borboletas

Mas faz sentido, principalmente se você pensar que os gases liberados na atmosfera pelo seu carro podem derreter o gelo do Ártico por causa do tal efeito estufa E é por isso que não consigo dormir Estou me sentindo estufado e temo causar uma catástrofe em algum ponto do planeta

Está tudo interligado, tudo interconectado Vivo num imenso condomínio mundial Se seguro o elevador, meu vizinho de cima pode perder o emprego Se compro tênis no camelô, estimulo o trabalho escravo no oriente Se compro diamantes, patrocino o genocídio na África Central Sou mais

um responsável por todos e todos por um, num planeta com mais de seis bilhões de mosqueteiros.Sofro ao saber que alguém na Rússia vai ficar sem hambúrguer porque alguém no Brasil se esqueceu

de vacinar a vaca Preocupo-me quando um frango espirra no Vietnã e uma andorinha sozinha vai fazer verão na Romênia levando o vírus

Será que é o excesso de informação que faz isso comigo? Deve ser Antigamente eu só sabia do que acontecia com meus primos e minha tia Meu mundo cresceu com a abundância de informação e eu também No meu caso é o efeito estufa, como já disse Esse excesso de informação que me

bombardeia diuturnamente tem lá o seu lado bom para um cronista como eu Dependo de fragmentos

do cotidiano para escrever e meu e-mail traz todos os dias um caminhão de matéria prima

É claro que junto vem muito lixo, mas também recebo casos que posso reciclar, como o de dona Gertrudes – o nome eu inventei – que pode ser real, lenda ou trote, não sei O que sei é que, se existir, ela é tão ou mais preocupada do que eu Por isso decidi escrever minha versão reciclada da história de autor desconhecido que circula na Internet, para dar a ela um sentido mais educacional.Politicamente correta, socialmente correta, ecologicamente correta, seja-lá-o-que-for correta, assim é dona Gertrudes Só para você ter uma ideia, em sua cozinha há quatro cestinhos de lixo para

materiais recicláveis, um de cada cor: Vermelho para plásticos, amarelo para metais, azul para papel

e verde para vidro

E na garagem tem mais: preto para madeira, laranja para resíduos perigosos, branco para materiais hospitalares, marrom para orgânicos e cinza para não recicláveis Você acredita que a mulher tem até

um cesto de lixo roxo? É para as velhas radiografias, que ela acha que são radioativas

Quando não está caminhando ou usando sua bicicleta ou o transporte público, seu carro queima álcool, cinco vezes menos poluente que a gasolina Sua impressora até aprendeu a ler, de tanto ela imprimir do outro lado, e quando vai ao supermercado, leva sua própria sacola para reduzir o

consumo de sacos plásticos A menina do caixa, boba, acha graça

Refrigerante em garrafa PET? Nem pensar Só suco de fruta As lâmpadas da casa ela já trocou pelas econômicas, só toma banho frio e rapidinho, e ai do filho que deixar algum eletrodoméstico ligado

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na tomada com aquela luzinha em estado de espera Será que preciso dizer que ela escova os dentes com a torneira da pia fechada e usa a água suja da máquina de lavar roupa para lavar o quintal?Carne de vaca não come mais, por causa dos 25% do efeito estufa causados pelo escapamento do animal Sua dieta de alimentos orgânicos e integrais só abre a porteira para peixes e aves E quando a mulher viaja para o campo, leva um saco de sementes de árvores e arbustos para espalhar Mais verde do que dona Gertrudes, só o seu Garcez, o marido, que sofre um pouco do fắgado Até parou de fumar para ver se resolve.

Toda essa preocupação deu aos filhos a ideia de aprontarem com o peru da ceia de Ano Novo Justo com o peru, que Dona Gertrudes criou só com alimentação natural, massageou usando técnicas de

Do-In e tentou, sem sucesso, fazer a ave aprender Yoga Até homeopatia ela usou quando o peru

Foi só virar as costas e os filhos tiraram o peru do forno, esvaziaram a ave de seu recheio e enfiaram

no lugar um franguinho, o menor que encontraram no supermercado Tapado o orifắcio com farofa para disfarçar, devolveram o peru ao forno

ầ noite, cercada pela famắlia, a orgulhosa dona Gertrudes meteu a faca na ave e foi destrinchando, enquanto se gabava de suas preocupações ecológicas e sociais no preparo Ao descobrir o franguinho assado no interior da ave, gritou de comoção e horror antes de desmaiar:

Ố Meu Deus! Assei uma perua grávida!

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Pratos em extinção

Abro o jornal e a manchete me atinge bem no meio do estômago:

ỀPOPULARIZAđấO DO SUSHI AMEAđA O ATUM DE EXTINđấOỂ.

Não que eu seja fã de sushi, mas adoro atum e por isso fiquei preocupado Se o sushi, que leva um nadinha de atum, é o vilão da extinção, o que pensar de mim, um inveterado predador da espécie?Você não imagina o quanto gosto de atum, especialmente quando vem naquela latinha moderna, que nem precisa de abridor Basta puxar a argolinha e o atum salta no prato, suplicando por um banho de azeite, um pãozinho italiano e uma cerveja gelada Ele é versátil Vai com salada, vai com

macarronada, vai de patê, vai até só, ao natural e sem nada

Hoje me arrependo de ter comido tanto atum Sinto-me culpado por ter colocado a espécie em risco Quem me via no supermercado, enchendo o carrinho de latinhas, pensava que eu era um funcionário tirando a mercadoria vencida da gôndola De agora em diante, todas as vezes que puxar a argolinha

da tampa, irei me sentir como se tivesse acabado de acionar uma granada de pesca predatória

Mas, se sou culpado da extinção do atum, nada tenho a ver com a extinção da baleia O caso dela me intriga Você já comeu baleia ou conhece alguém que tenha comido? Mesmo assim ela corre risco de extinção Nunca vi uma latinha de baleia no supermercado Se perguntasse ao gerente, aposto como ele iria dizer que o supermercado não trabalha com baleias porque ninguém compra e a mercadoria fica encalhada Deve ser verdade, já ouvi falar de baleia encalhada

O que me intriga nessa questão de extinção são os critérios da natureza O que, exatamente, torna uma espécie mais extinguắvel que outra? Enquanto espécies como atuns e baleias desaparecem, outras, que gostarắamos de ver ao lado dos dinossauros, continuam aắ, fortes e saudáveis, driblando a extinção Estou falando daquelas que têm a foto nas latinhas de aerossol: moscas, formigas,

pernilongos e baratas

Quantas baratas você já matou até hoje? Mais do que os atuns que comeu, com certeza Por acaso elas correm algum risco de extinção? Nenhum Você pode matar quantas quiser e elas continuam

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fortes e saudáveis Corte a cabeça de uma barata e ela só morrerá cinco dias mais tarde, de

desidratação O cérebro da bichinha tem backup nas costas Será que a solução seria enlatá-las?

Eu já estava preocupado com a possibilidade de não poder comer atum quando tomei outro susto Camarão! Isso mesmo, meu segundo prato predileto Será que já está extinto? Deve estar Pelo menos foi a impressão que tive, quando pedi um “Peixe na Telha com Camarão” que vi no cardápio

de um restaurante de beira de estrada Quando terminei protestei, indignado, para o garçom:

– Que péssimo, só encontrei um camarão!

Reclamei, porém inseguro, já que no cardápio “camarão” estava mesmo no singular.

Sem tirar os olhos dos pratos que recolhia da mesa para a bandeja, o garçom respondeu com uma insensibilidade preocupante, como se a extinção do crustáceo fosse algo perfeitamente normal:– Achou um? Sorte sua Tem cliente que não acha nenhum

* * * * *

Um avatar no meu quintal

Juntando os comentários na Web sobre o ativismo ecológico de James Cameron na Amazônia, a mensagem de quem reclama é uma só: O cara não tem nada que se intrometer no meio-ambiente daqui Será?

A verdade é que as questões ambientais não têm fronteiras Como na Pandora do filme Avatar, vivemos num mesmo planeta onde tudo afeta a todos Uma erupção no vulcão Eyjafjallajökull na

longínqua Islândia vai parar no seu pulmão, quer você consiga pronunciar o nome do vulcão ou não.Sem tirar de James Cameron o direito de defender índios e flechar hidrelétricas, eu só diria a ele:

"Menos, James, menos "

Por quê? Porque ele está com o rabo preso em uma sociedade de consumo que polui para sobreviver

É admirável sua disposição para defender nativos de pele vermelha ou azul, mas também admiro quem defende as hidrelétricas como opção de energia limpa e barata

É claro que colocar uma rolha no Rio Xingu gera impacto socioambiental, mas não existe opção

rápida para pessoas ávidas para assistir Avatar em 3D numa nova TV, como eu e você Pouco a

pouco vamos aprendendo a ordenhar o vento e o sol, mas ainda é debalde para a atual demanda de energia Por um bom tempo continuaremos dependendo da hidrelétrica, do átomo e dos combustíveis fósseis para quase tudo, inclusive para fazer filmes

Sabia que Hollywood é a segunda indústria mais poluente de sua região? Pois é, e o governador da Califórnia está empenhado em reverter isso É o mínimo que pode fazer quem já foi o exterminador

do futuro Somos tão dependentes da indústria petroquímica, que até para protestar contra o

combustível fóssil dependemos do dito sujo Os motores dos navios do Greenpeace não são movidos

a boas intenções, e aqueles caras não fazem rapel no costado dos superpetroleiros com cordas de sisal biodegradáveis, nem seus botes de ataque são pedalinhos

O calor do protesto pode aquecer a opinião pública global, mas as soluções costumam vir de quem fala menos e faz mais Mesmo assim, quem fala deve continuar falando, consciente de que estamos todos de rabo preso no atual modelo de desenvolvimento Inclusive você, que usa a Internet De

acordo com o Daily Telegraph, a cada duas buscas no Google você gera tanto CO2 quanto para

ferver seu chá

Ativistas radicais sugerem deixar o mato crescer, esquecer as hidrelétricas e não mexer com o índio A questão é que o índio não é tonto Hoje ele também quer transporte, luz, Internet e celular Querer viver índio com cabeça de consumo é repetir a tragédia asteca Pode funcionar para uma tribo de meia dúzia, mas não funciona para uma tribo de meia dúzia de bilhão

A visão romântica de meus anos de ativista ecológico na faculdade, com cada um morando numa casinha branca no mato e assando seu próprio pão, é pura ilusão Terminei a faculdade, fui morar no mato e fiz até uma canção para embalar meu sonho Mas não é preciso ser muito inteligente para entender que mil pães assados num único forno gastam menos energia do que mil fornos assando cada um o seu pão

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É por isso que cidades empilhadas e apinhadas ainda são mais eficientes do que condomínios

horizontais, com casas esparsamente polvilhadas em extensos gramados Apartamentos gastam menos energia, encanamento, fiação, superfície impermeabilizada, transporte etc Quanto mais gente você empilhar, menos energia vai gastar

Mas não se torture se morar numa mansão James Cameron mora em uma construída e mantida à custa de muito combustível fóssil em um oásis artificial irrigado por bombas no deserto Como eu já disse, todos nós temos o rabo preso, mas se for para o bem do planeta, até vale o James adotar o

Avatar mais adequado ao seu papel de salvador da Pandora amazônica.

Até eu tenho o rabo preso nos atuais meios de transporte altamente poluentes, pois para fazer

palestras de meio-ambiente e outros assuntos, viajo de carro ou avião Não posso viajar nos cavalos

de seis pernas de Pandora, ou voando em seus dragões alados E ainda que pudesse, não seria

diferente dos habitantes de lá Afinal, no filme eles também só conseguem viajar quando estão com o rabo preso

* * * * *

A hora do Abreu

O tropel de trezentos cavalos ecoou pelo vale quando o pedal do acelerador sentiu o toque da espora

do dono O motor do SUV respondeu rápido e os enormes pneus obedeceram à tração nas quatro rodas, fazendo o veículo escoicear em meio a uma saraivada de pedras e barro Pelo retrovisor já não era possível enxergar a trilha, oculta por uma cortina de fumaça

Abreu precisava vencer logo aquele trecho antes de chegar ao asfalto Tinha um compromisso consigo mesmo e com a sociedade Não podia faltar Como sempre fazia, abriu o vidro e atirou para

o mato as garrafas PET de água mineral, agora vazias, e o saco plástico com os restos de frutas e sanduíches naturais Ele se preocupava com a saúde, mas só aos sábados, quando queria estar bem disposto para vencer as trilhas No domingo saía da trilha e do sério, e caprichava no churrasco

No caminho parou no açougue do amigo para abastecer de carne o seu freezer Tinha ligado para reservar a melhor picanha, diretamente de uma fazenda no Amazonas Enquanto colocava os pacotes

em tríplices sacolas plásticas para evitar que se rasgassem, Abreu calculou se as cervejas que tinha

em casa no congelador ao lado do freezer seriam suficientes Achou que sim Só precisava mesmo da carne e de dois sacos de carvão

Em casa, os pneus deixaram um rastro de barro na calçada, na entrada e no piso da garagem, mas a faxineira cuidaria de passar um esguicho em tudo na segunda-feira Antes disso Abreu já teria levado

o carro para lavar O pessoal do posto não reclamava de lavar na segunda o barro seco do sábado, pois Abreu sempre deixava uma gorjeta para compensar o dobro de esforço, água e xampu que seu carro exigia

Antes de sair da garagem olhou de relance para o jet-ski ao lado da moto de 800 cilindradas Logo

ele levaria seu novo brinquedo náutico para a casa de madeira que tinha na marina, onde também ficava sua lancha de 28 pés movida por dois enormes motores diesel Abreu olhou para o relógio e viu que ainda dava tempo de tomar uma sauna antes do banho Foi só quando saiu do banho quente que percebeu que a casa estava fria Com a mão enrugada regulou o ar condicionado central que mantinha sempre ligado Caminhou para a sala e olhou outra vez para o relógio Tinha chegado a hora

Abreu acionou o interruptor e as trinta e oito lâmpadas incandescentes parcialmente embutidas no teto se apagaram Em seguida desligou um a um cada abajur dos oito cantos de sua enorme sala Por

uma hora Abreu ficaria em estado de espera, igual aos doze leds coloridos dos aparelhos eletrônicos

na estante

Sentindo uma paz interior como há muito não sentia, Abreu foi até a janela e fechou as cortinas para evitar que as luzes da casa do vizinho estragassem a aura preservacionista que preenchia cada recôndito de sua alma Se o vizinho não queria participar da "Hora do Planeta", com todos apagando

as luzes por sessenta minutos, o problema era dele Cansado e com sono, Abreu desabou no sofá e sonhou que era Al Gore

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As 110 lâmpadas

Não, não eram 102 dálmatas, muito embora aquele teto lembrasse a pele do cão Eram cento e dez pontos negros no teto branco segurando cento e dez lâmpadas econômicas que não faziam economia alguma Eu estava na pequena agência dos correios da pequena estância hidromineral onde passava minhas férias quando pequeno Fiz uma parada rápida ali a caminho de um cliente na cidade

seguinte, para matar a saudade e postar um Sedex

Aquele exagero de pontos de luz em um ambiente pouco maior que minha sala chamou minha atenção, provavelmente por ser arquiteto de formação e curioso por vocação O curso de arquitetura

me ensinou a observar os detalhes e a pensar em 3D, coisas que me ajudam até hoje Disto depende o pensamento estratégico em qualquer atividade que eu exerça e ainda posso ouvir meu professor dizendo:

"Prédios não têm fachada, não têm frente nem fundos, todos os lados precisam ser pensados".

A sabedoria do professor vale para qualquer negócio A arquitetura ensinou-me também a tomar o ser humano como ponto de partida e destino de todo projeto Só faltou uma coisa no curso de

arquitetura, algo que todos os cursos ficam devendo a seus alunos: ensinar a vender

Por não ter aprendido marketing, saí da faculdade com uma visão hermética, purista e elitista: só eu seria capaz de saber o que era melhor para meu cliente e pouco me importava se ele entendia ou não

o valor e a razão da minha profissão Caí no mercado com uma visão equivocada do que é ser

arquiteto

Mas se eu, que estava dentro da profissão, tinha uma visão equivocada, o que esperar de quem está fora? Pergunte a qualquer pessoa o que um arquiteto faz e, deixando de fora os que ficarão mudos, você terá um rosário de definições, algumas nem um pouco politicamente corretas A maioria vai concluir que arquiteto é um luxo desnecessário

“Arquiteto? Pra quê? Basta levar o esboço feito pela patroa em papel de pão e aquele despachante

da esquina passa a limpo e ainda obtém a aprovação da planta Nada que uma caixa de cerveja não resolva”.

Mas, na real, o que é arquitetura e o que faz o arquiteto? Fiz uma busca no Google e fiquei

petrificado como a definição de Goethe: "Arquitetura é música petrificada" Le Corbusier definiu a arquitetura como "o magistral, magnífico e correto jogo de volumes trazidos à luz" Lá atrás, há dois

mil anos, Marco Vitrúvio Polião, arquiteto romano, escreveu:

"A arquitetura é uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados

ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o

resultado das outras artes."

Hein? Bem, com definições assim o que você esperava que o leigo pensasse do arquiteto? O que pouca gente percebe é que há milhares de anos o arquiteto tem deixado sua marca na história

humana Ora, quem você acha que projetava as cidades, edifícios e ambientes dos épicos que você vê

no cinema? Exceto pela parte em que o arquiteto era enterrado vivo com o faraó, a profissão era das melhores e mais respeitadas da antiguidade

E hoje? Falta ao arquiteto saber vender seu peixe; conseguir traduzir para o cliente o valor intrínseco

da profissão, descortinar o benefício, o que o cliente vai ganhar com isso Caso contrário será

impossível evitar a ideia equivocada que muitos têm da profissão

O homem atrás de mim na fila da agência de correios era um deles Depois de contar as lâmpadas para matar o tempo, comentei com ele:

– Será que aqui funcionava uma loja de lustres e aproveitaram os pontos de luz? Ou, talvez, o dono

do imóvel seja um fabricante falido de bocais? Ou quem sabe um acionista da indústria de lâmpadas econômicas?

– Nada disso – redarguiu o homem na fila – Isso aí só pode ser coisa de arquiteto

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A expansão do ser humano

Há mais de quarenta anos o homem chegava à Lua Foi um momento de conquista e glória para a humanidade Finalmente tínhamos alcançado as alturas Agora tudo indica que o ser humano está empenhado em alcançar as larguras

Percebi isto na entrevista de uma empresária do segmento de confecções de roupas íntimas Caíam as vendas de calcinhas tamanho "P" e aumentavam a olhos vistos as de tamanhos como "G", "GG" e até

"GGG" Provavelmente o mesmo acontece com as cuecas e suponho que a indústria acabará

adotando etiquetas com tamanhos exponenciais como "G 20"

Apesar das políticas de controle de natalidade, a população da Terra continua sob a ameaça de uma explosão demográfica, agora no sentido literal Essa expansão do ser humano para as laterais já cria problemas de espaço As salas de embarque nos aeroportos oferecem bancos em dobro para obesos, mas os aviões ainda insistem nas poltronas tamanho "P - Infantil" Se você for tamanho G+ vai precisar comprar duas poltronas e pedir um extensor do cinto de segurança Já posso ouvir a mudança que logo

farão no aviso da comissária: "Para seu maior conforto, mantenha o cinto afivelado e o apoio do

braço entre as poltronas levantado".

Em um de meus voos fiquei feliz ao descobrir que viajaria na poltrona do corredor e com uma vaga entre mim e o passageiro da janela Ele pareceu ler meus pensamentos, pois também olhou para a poltrona vazia entre nós e sorriu Mas nossa alegria durou pouco Um eclipse na luz da cabine revelava o embarque tardio de um casal avantajado A dupla avançava pelo corredor deixando claro para onde caminha com dificuldade a humanidade, se não parar de comer

Lembrei-me com saudades dos tempos em que as coisas eram mais difíceis e você precisava

descascar as batatas se quisesse comê-las fritas As pessoas eram menores e mais magras, ter carro era luxo e refrigerante era bebida de festa Hoje os adolescentes são maiores que os pais Muito maiores Verdadeiros gigantes que não só crescem para o alto, mas também para os lados

Principalmente para os lados Dos pés, então, nem se fala Eles compram tênis e ainda podem

escolher o acessório: remo ou vela

Enquanto o governo não trocar o "Fome Zero" pelo "Obesidade Zero" e estampar nas embalagens de

alimentos calóricos uma galeria de horrores como a das embalagens de cigarros, a população do

planeta vai ter de combater o "Efeito Estufado" à sua maneira E é o que estão fazendo os

funcionários de um hospital no Rio

De iniciativa própria eles adotaram um programa nutricional para reduzir a taxa de quase 50% de obesidade da equipe Depois de um ano, os mil e quatrocentos funcionários tinham se livrado de três toneladas de gordura Três toneladas! Para você ter uma ideia, se toda essa gordura fosse extraída por lipoaspiração daria para produzir duas toneladas de biodiesel Também daria para fabricar centenas

de barras de sabão ou potes de margarina, para quem não se importar de passar o colega no pão Nem

o pessoal da Rio+20 pensou nesta possibilidade.

A notícia que chega de Nova Iorque é de uma iniciativa para atacar os refrigerantes como quem ataca

o terrorismo A demora na implementação das leis deve ser por estarem discutindo se a pena para quem tomar Coca-Cola deve ser a mesma de quem tomar Pepsi O sal também virou vilão e em alguns lugares o saleiro já foi banido da mesa dos restaurantes

Mas sal engorda? Sim, porque causa a retenção de líquidos no corpo Então a solução, ao menos para

o excesso de sal, é evitar salgados e comer doces, certo? Errado Outro dia comparei a quantidade de sódio que havia numa porção de batatas fritas servidas no avião com o sódio da mesma porção de biscoitos de chocolate recheados que aceitei da aeromoça em um momento de fraqueza O biscoito doce tinha mais sódio que a batata salgada

Meus pensamentos foram interrompidos quando o casal wide-body parou no corredor do avião para

conferir seus lugares: a mulher iria para a poltroninha do meio, ao meu lado, e o homem ficaria do outro lado do corredor Quando percebi, levantei-me de um salto

– Viajam juntos? Não é justo que fiquem separados O senhor pode ficar com meu lugar ao lado de sua senhora e eu fico com o seu, do outro lado do corredor Faço questão! – insisti

Os dois ficaram encantados Pela pequena fresta que sobrou entre eles e o encosto da poltrona pude

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ver o outro passageiro, com a bochecha grudada na janelinha, me fuzilando com o olhar.

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Ai, que fome!

Deixe-me adivinhar: em sua lista de promessas para o novo ano está perder peso, certo? Na minha

também Agora, cada vez que me sento para uma refeição, quase posso ouvir meu prato dizer: "Tudo

o que você comer poderá ser usado contra você" Igual aos filmes policiais.

Há algumas décadas eu até que consegui perder uns quilinhos Apertei o cinto de 93 para 87 quilos reduzindo a atividade do maxilar e aumentando a das pernas Numa nova e corajosa investida eu consegui chegar nos 85 quilos e fiz novos furos no cinto É fácil perder alguns quilos Nos últimos anos perdi vários deles O problema é que depois achei todos e mais alguns

Emagreço quando dou palestras, por manter a boca ocupada Como não fico 24 horas palestrando, decidi criar minha própria dieta: saladas, frutas e fomes Isso mesmo, no plural, porque a fome é muita Eu já tinha me esquecido da sensação de fome Qual foi a última vez que você teve uma fome daquelas de quando era criança?

No tempo em que maiô ainda era de lã, daqueles que pareciam coador de café ao sair da água, eu treinava natação No fim do treino eu devorava um pão com mortadela na cantina do clube Quando dava sorte vinham dois palitos, um em cada metade, que eu segurava com os dedos enrugados, lambia e mastigava para não desperdiçar nenhum gostinho, tamanha era a fome Outro dia vi uma foto da época e lembrei-me dos palitos Eu era assim, fininho

Não tinha esse negócio de snack de batata frita Naquele tempo, quem quisesse comer batata frita

precisava pedir à mãe na véspera Ela ia comprar a batata, descascar, esquentar o óleo, fritar, secar e mandar você plantar batata se quisesse comer antes do almoço Batata frita nunca era comida sozinha – sempre vinha na garupa do bife montado pelo ovo

Hoje não Basta rasgar a embalagem e a batata está ali, dourada, crocante, deliciosa! E cheia de gordura, aromatizante, corante, sal e glutamato monossódico, para o seu corpo se transformar numa verdadeira represa de retenção de líquidos Se continuar assim, as balanças de nova geração virão graduadas em arroba

Até as revistas estão se adaptando aos tempos rotundos Outro dia vi uma revista dessas de gente

chique que joga golfe Meu olho de arquiteto percebeu logo que as fotos das socialites e emergentes

tinham sido esticadas na vertical para as pessoas parecerem mais magras O que o manipulador do

Photoshop não percebeu foi que as bolinhas de golfe ficaram ovais.

As empresas começam a abrir os olhos para o problema da obesidade e você já encontra cardápios light nos refeitórios O problema é que eles ficam ao lado daquele suco de maracujá que é um

melado, de tanto açúcar A campanha pela saúde no trabalho só tende a crescer, porque a banha precisa diminuir Gordura demais amolece o trabalhador, derruba a produtividade e aumenta a probabilidade do funcionário empurrar tudo com a barriga Literalmente

Qualidade na vida e no trabalho é um tema para o qual tenho sido convidado para falar com uma frequência cada vez maior Daí minha urgência em perder dez quilos e ganhar dez anos Dou-me por

feliz por não fumar, não ter fígado flex e nem ser viciado em doces Portanto é só diminuir a

quantidade do que entra pela boca e aumentar o que sai pelos poros Para isso faço caminhada – de

vez muito em quando – ouvindo meu iPobre, uma versão barata do iPod.

Assim como já tem empresa aérea cobrando mais para quem pesa o dobro, daqui a pouco vai ser preciso incluir no currículo peso e medidas de busto e quadris A falta de forma – ou o excesso dela – aumenta o custo do trabalhador, mais vulnerável às doenças causadas pela obesidade Pode soar discriminatório, mas o critério vai seguir o exemplo do que já é feito com o fumo Os governos do mundo perceberam que os ganhos com os impostos do tabaco não compensam as perdas com

previdência de uma população fumante

A campanha contra o fumo nas empresas vai ganhando características aterradoras Visitei uma que começou criando uma sala para fumantes, para depois criar quiosques e distribuí-los o mais longe

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possível de cada prédio O passo seguinte foi eliminar as coberturas dos quiosques e fazer uma parceria com a chuva Agora a empresa está reduzindo o número dessas áreas de fumantes para obrigá-los a caminhar dezenas de metros até a área mais próxima Como a empresa é grande e espalhada, se correr, dá tempo de o trabalhador acender, tragar uma vez, e voltar antes de terminar o horário de almoço.

De olho nesse novo padrão de consumo, em breve os fabricantes devem lançar cigarros menores, ou mesmo picotados, para você fumar só um pedacinho E a indústria da reciclagem vai querer o seu quinhão, lançando maços de bitucas ou baganas remanufaturadas

* * * * *

Santa Maria!

– Santa Maria! – foi o que eu e Cristóvão Colombo exclamamos quando pisamos no convés daquela

caravela O barco que Fernando e Isabel, reis da Espanha, deram ao explorador genovês para cruzar

o Atlântico era minúsculo e nem de longe lembrava aqueles do filme “Piratas do Caribe” Daí a

surpresa

Antes que me julgue velho, saiba que eu e Colombo não dissemos isso na mesma época Nem foi no mesmo barco que estive, mas numa réplica que visitei nos Estados Unidos cinco séculos depois do genovês Gosto de deixar isso claro, pois após certa idade a simples menção de um fato histórico faz

as pessoas pensarem que você participou dele Quando alguém me pergunta se vi o Titanic fico na

dúvida se está falando do filme

Quando Colombo zarpou para a Índia na direção oposta, todo mundo achou que seu barco

despencaria no abismo que havia onde acabava a Terra plana Para mim ele sabia que a Terra já tinha ficado redonda, mas há quem diga que Colombo era do tipo que viajava sem parar para pedir

informações, por isso errou o caminho

Apesar de ter ido até o Triângulo das Bermudas, não era em confecções que ele estava interessado, mas em especiarias Era cada vez mais difícil encontrar pimenta e outros temperos nos

supermercados da Espanha e ninguém aguentava comer paella com gosto de nada Além disso, há

boatos de que Colombo pretendia trazer um navio de pimenta e montar uma fábrica de linguiça na Calábria, mas isso nunca foi confirmado

Cristóvão Colombo só é considerado o descobridor da América porque teve uma boa assessoria de imprensa Quando seu navio chegou os índios já moravam aqui há séculos, mas pelo jeito ninguém prestava atenção em descobridores que vieram a pé Tenho um palpite de que até mesmo outros italianos tenham atravessado o Atlântico antes de Colombo, sem navio, só falando, falando

Felizmente Colombo nunca soube exatamente o que descobriu, portanto não deu seu nome ao Novo Mundo Foi graças a outro italiano, Américo Vespúcio, que nosso continente acabou se chamando América e isso evitou uma enorme confusão geográfica Se tivessem deixado Cristóvão Colombo batizar o continente, hoje o Brasil ficaria na Colômbia

Graças a esses, que navegaram “por mares nunca dantes navegados, passaram ainda além da

Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”, a América é

hoje o continente que conhecemos Se não fosse pela coragem desses homens, Camões não teria escrito estes versos, eu não teria sido obrigado a decorá-los no ginásio e meu professor não teria me aprovado Mesmo assim continuo sem saber onde fica Taprobana

Por pouco não fomos descobertos 80 anos antes pelos chineses, com navios quatro vezes maiores

que os meros 25 metros do “Santa Maria” Eles já navegavam por aí quando os europeus ainda

tentavam descobrir com quantos paus se fazia uma canoa O Colombo dos chineses chamava-se Zheng He e teria aportado aqui antes dos europeus se o novo imperador não instituísse uma política mais pé-no-chão Sorte nossa

Por quê? Oras, já pensou se os chineses tivessem fincado bandeira aqui antes de Cristóvão Colombo? Nossa vida não seria a mesma Estaríamos hoje usando roupas chinesas, sapatos chineses,

computadores chineses

Ngày đăng: 21/02/2014, 14:20

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